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12/04/2015 10h09 - Atualizado em 12/04/2015 11h38

Cinco peixes-boi serão transferidos de Pernambuco para ilha no Caribe

Mamíferos estão sendo emprestados para repovoar as Antilhas Francesas.
Decisão é questionada por pesquisadores de entidades nacionais.

 

Katherine CoutinhoDo G1 PE

Peixes-boi – batizados de Netuno, Xuxa e Daniel – já embarcam para o Caribe na próxima terça (14) em um avião-cargueiro fretado pelo governo francês (Foto: Luna Markman/G1)Peixes-boi – batizados de Netuno, Xuxa e Daniel – já embarcam para o Caribe na próxima terça (14) em um avião-cargueiro fretado pelo governo francês (Foto: Luna Markman/G1)

Cinco peixes-boi do Centro de Mamíferos Aquáticos (CMA) situado na Ilha de Itamaracá, na Região Metropolitana do Recife, vão ser transferidos para o Parque Nacional de Guadalupe, nas Antilhas Francesas, território ultramarino da França no Caribe. Os animais estão sendo emprestados pelo governo brasileiro para auxiliar no repovoamento do conjunto de ilhas da América Central, onde estão extintos há um século. A decisão está sendo questionada por pesquisadores e especialistas de diversas entidades nacionais, que defendem a permanência e investimentos no Brasil.

Três dos peixes-boi – batizados de Netuno, Xuxa e Daniel – já embarcam para o Caribe na próxima terça (14) em um avião-cargueiro fretado pelo governo francês. Eles serão transportados dentro de caixas feitas de madeira náutica e aço inox, com um colchão umedecido. São cinco horas de viagem até a ilha. Ao longo do trajeto, será borrifada água nos bichos. Uma segunda viagem ocorrerá dentro de seis meses, para levar Sereia e Marbela.

Fábia Luna, coordenadora do CMA e doutora em oceanografia, acredita que mudança vai contribuir para a conservação da espécie (Foto: Luna Markman/G1)Fábia Luna, coordenadora do CMA, acredita que mudança
vai contribuir para a conservação da espécie
(Foto: Luna Markman/G1)

“Esses peixes-boi estão sendo emprestados e podem ser trazidos para o Brasil a qualquer momento. A gente está enviando porque o Brasil é signatário da CBD [Convenção sobre Diversidade Biológica], que visa à conservação da biodiversidade”, explica a coordenadora do CMA e doutora em oceanografia, Fábia Luna.

Quatro dos cinco animais são mais velhos, já reproduziram e têm diversos filhotes soltos no litoral brasileiro. “Só temos um local onde os peixes-boi podem ser soltos no Brasil e já temos filhotes deles soltos lá. Não podemos soltar mais para não termos problemas de consanguinidade. Eles estão até separados pra não se reproduzirem”, afirma Luna.

A pesquisadora do CMA ressalta que até mesmo os protocolos utilizados para pesquisa nas Antilhas Francesas serão os brasileiros. “Temos peixes-boi que estão fora da natureza, que não estão reproduzindo, que não estão conservando a espécie. Eles não estão com função ecológica nenhuma. Esses não podem contribuir aqui, mas podem contribuir em outro país. Lá, os filhotes podem ser soltos. A gente vai dar uma função nobre, ecológica. Nós, como membros da CBD, temos uma obrigação de ajudar a conservação da biodiversidade e não só no Brasil”, defende.

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) criou em 2010, junto com pesquisadores, órgãos estaduais e organizações não governamentais, o Plano de Ação Nacional para Conservação dos Sirênios (ordem de mamíferos marinhos herbívoros, da qual faz parte o peixe-boi). O objetivo era “aumentar o conhecimento do status de conservação do peixe-boi-amazônico, combater a retirada de espécimes da natureza e melhorar o status de conservação do peixe-boi-marinho”, segundo descrição da própria instituição. Ainda assim, cinco anos depois não há números exatos da população do peixe-boi marinho no Brasil.

Bichos são mantidos no Centro de Mamíferos Aquáticos (CMA), situado na Ilha de Itamaracá, Grande Recife (Foto: Luna Markman/G1)Animais são mantidos no Centro de Mamíferos Aquáticos (CMA), situado na Ilha de Itamaracá, Grande Recife (Foto: Luna Markman/G1)

Ainda conforme a pesquisadora do CMA, a intenção inicial do governo francês era levar para o Caribe peixes-boi que circulam pelo litoral do estado do Amapá, no Norte do país, já que a partir do momento em que os animais cruzam o Rio Oiapoque, eles estão na Guiana Francesa. “O Brasil não tem conhecimento de como estão esses indivíduos do Amapá ainda. A gente visou preservar essa população, por isso ficou acordado que, com a ida dos animais de Itamaracá, não se mexe na população do Amapá”, destaca Luna.

Críticas ao acordo
O diretor-presidente da Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA), João Carlos Gomes Borges, questiona o acordo dos governos. Ele explica que as estimativas sobre a população brasileira de peixes-boi vão de 500 a 1.000 exemplares. “Essa espécie existia desde o Espírito Santo até o litoral do Amapá. Não existe mais no Espírito Santo nem na Bahia. No Sergipe, a partir do repovoamento feito em Alagoas, começou a aparecer alguns animais. Seria mais prioritário encaminhar peixes-boi, levar para Guadalupe para iniciar uma nova população ou garantir que tenham continuidade dentro do Brasil?”, observa Borges.

O diretor-presidente da Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA), João Carlos Gomes Borges, questiona o acordo dos governos (Foto: Penélope Araújo/G1)O diretor-presidente da Fundação Mamíferos Aquáticos,
João Carlos Gomes Borges, questiona o acordo dos
governos (Foto: Penélope Araújo/G1)

A pesquisadora do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM) Miriam Marmotel, que trabalha com peixes-boi há mais de 30 anos, tendo doutorado na área, também critica o empréstimo dos animais. O peixe-boi-marinho era considerado o mamífero aquático mais ameaçado de extinção no Brasil. “Até dezembro, ele era classificado como criticamente em perigo. Magicamente, eles deixaram de ser criticamente ameaçados e passaram para outra categoria. Alguma coisa aconteceu sem o conhecimento dos envolvidos no Plano de Ação. Não fomos consultados”, argumenta.

Experiência internacional
Guadalupe é a maior ilha das Antilhas francesa. Segundo a coordenação do CMA, estão sendo negociados empréstimos de animais de outros países da América Central.  Legalmente, não há problemas com a transferência, lembra o diretor-presidente do FMA, uma vez que o Brasil é signatário da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES).

Para a transferência, é necessária a aprovação de uma autoridade administrativa e outra científica, que são o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] e o ICMBio, respectivamente. “É um projeto que é avaliado pelas competências de governo. Se eu estou querendo [fazer o acordo] e eu mesmo vou dar aval, é pouco provável que as coisas não aconteçam da maneira esperada”, afirma Borges.

Do ponto de vista técnico e acadêmico, a decisão também é questionada pelas entidades. “É um grande experimento, que é de certa forma interessante se fosse uma espécie que estivesse praticamente anulada e não tivesse condição de recuperá-la no Brasil, o que não é o caso. Não existe nenhuma medida dentro do Plano de Ação de mandar esses animais para fora”, destaca Marmotel.

Uma segunda viagem para o Caribe ocorrerá dentro de seis meses, para levar os peixes-boi Sereia e Marbela (Foto: Luna Markman/G1)Uma segunda viagem para o Caribe ocorrerá dentro de seis meses, para levar os peixes-boi Sereia e Marbela (Foto: Luna Markman/G1)

Para a pesquisadora Fábia Luna, as críticas por ausência de questionamento sobre a transferência a outras entidades é normal. “Quem está sendo escutado em nível de governo tem doutorado em peixe-boi. Outros pesquisadores contestam como em qualquer pesquisa. Tudo foi amarrado para a tutela continuar sendo brasileira. Não é uma decisão política, é uma decisão técnica”, assegura.

Espécie ameaçada
Os pesquisadores que assinam o documento contra a transferência apontam que outras soluções podem ser encontradas no próprio país e a experiência que vai ser feita nas Antilhas Francesas devia ter estrutura para acontecer no Brasil. “Eticamente e cientificamente não existe justificativa para transferir esses animais. A gente deveria estar fazendo no Brasil, nos estados que já foram extintos e aumentar as outras populações”, aponta Marmotel.

Para eles, a decisão de transferir cinco animais de uma população ainda ameaçada de extinção vai na contramão de outras decisões tomadas pelo governo. “O Brasil lutou para repatriar as araras-azuis. Conseguimos trazer um casal da Alemanha com muita dificuldade. Agora se faz o caminho contrário e se manda para fora esses animais?”, questiona Borges.

Os motivos dos pesquisadores passam desde a questão do repovoamento de áreas brasileiras, de onde os peixes-boi desapareceram, até a preocupação de esse ser um experimento em que pode não haver êxito. “Apesar de se tratando da mesma espécie, que implicação genética tem de tirar um peixe-boi daqui e colocar em Guadalupe? Em termos evolutivos, temos 100 mil anos de diferença genética”, aponta Borges.

A possiblidade dos animais brasileiros enfraquecer os outros animais caribenhos caso tenham doenças ou genes não adaptados ao Caribe não é vista como preocupação pelo CMA/ICMBio. “Esses animais não têm como ser soltos pelo tempo deles em cativeiro. A gente só tem um local de soltura aqui. Ao todo, 23 países do Caribe aprovaram esse projeto e acharam que é importante levar os peixes-boi”, garante Luna.

Animais serão transportados dentro de caixas feitas de madeira náutica e aço inox, com um colchão umedecido. São cinco horas de viagem até o Caribe. Ao longo do trajeto, será borrifada água nos bichos (Foto: Luna Markman/G1)Animais serão transportados dentro de caixas feitas de madeira náutica e aço inox, com um colchão umedecido. São cinco horas de viagem até o Caribe. Ao longo do trajeto, será borrifada água nos bichos (Foto: Luna Markman/G1)